ESTADOS ALTERADOS DA PERCEPÇÃO - Hipocrisia cultural
Você
já esteve em uma festa regada a vinho em fartura?
Já
observou, ou pode imaginar, o estado em que ficam os convidados no
final dessa festa?
Passou
alguma vez pela sua cabeça a ideia de chegar a essa festa nesse
momento trazendo mais vinho, de melhor qualidade e em abundância?
Pois
foi exatamente o que fez Jesus, o Cristo.
Penso
que se Jesus estivesse seguindo ao Papa católico (ou a qualquer
líder de qualquer instituição pública ou privada, religiosa ou
não do mundo moderno) ao invés de seguir ao Deus Pai teria
transformado não água em vinho, mas sim o pouco de vinho que ainda
restava, na água mais pura e benta jamais vista, capaz de
restabelecer a saúde dos presentes, trazendo de volta a sanidade e
compostura necessária diante da autoridade que estava ali para
representar. Mas não foi isso o que ele fez, e não que não o
pudesse fazer, o fato é que não o fez e não sou eu que vou
questionar a moralidade divina, nem me achar mais santa que o Santo.
O
que verifico é que faz parte da natureza humana buscar alterar a
própria percepção sensorial em busca de experimentar a si mesmo,
nossa cultura se constrói sobre esse estado alterado, cultuamos
inúmeros ídolos que construíram sua personalidade lançando mão
desse recurso, consumimos diariamente e intensamente o resultado
alcançado por mentes e espíritos alterados: Shakespeare, Oswaldo Cruz, John
Lennon, Noé, Vinícius de Moraes, Cazuza, Noel Rosa (até
Regina Duarte, a namoradinha do Brasil...) e, é sempre bom lembrar, JESUS.
Nossa
sociedade é leviana e hipócrita quando lança na ilegalidade a
natureza humana. A proibição não só do uso, mas também da
reflexão clara e franca sobre o tema é mais letal que os estragos
causados em nossa moralidade pela imagem feia e torcida de bêbados e
drogados que seguem abandonados pelos cantos ermos de casas e ruas
com os quais temos convivido de forma oprimidamente cínica em tempos
modernos.
Se
combatêssemos nossa hipocrisia com a mesma intensidade com que
combatemos a produção e venda de determinados entorpecentes
continuaríamos convivendo com os estados alterados da percepção, inerente a vida em sociedade desde relatos remotos (foi encontrado
THC ativo em múmias milenares...!) porém, de forma conscientemente
amigável, acolhedora, saudável e por que não dizer, humana...
Sob
o efeito da repressão e da opressão a que estamos submetidos
diariamente por moralidades institucionalizadas por falsas premissas,
até mesmo o vigor de nossas mãos torna-se arma e se volta mordaz contra nós. Nosso próprio organismo produz a química que
altera nossa consciência e lançamos a violência até mesmo contra
nossas crianças amadas, lançadas pela janela e trancafiadas em
porões como vimos assistindo diariamente, confortavelmente, nos
tabloides diários que nos entorpecem o espírito, involuntariamente.
Entorpecidos
pelo consumismo de pequenos e grandes poderes, prazeres irrestritos,
financiamos milícias oficiais que nos matam enquanto protegem nossa
mediocridade; entorpecidos pelo medo nos confinamos calados em
confortáveis caixas, gradeadas com bom gosto; entorpecidos pela
superioridade cultural racionalista marchamos sobre os que nos são
diferentes no tempo e no espaço (transmitido em tempo real e em rede
nacional, civilizadamente simbolizados e preservados pelo patrimônio
histórico cultural).
Mas
quando a violência que acontece entre nossos iguais envolve um
princípio ativo deliberado e sem controle, nossa moralidade santa
grita e clama pela ordem que segue dando choque enquanto brindamos a
isso, empapuçados!
Queremos
escola para todos e todos na escola, não importando o que está
sendo formatado em nossas mentes; queremos emprego para todos e todos
empregados, não importando a serviço de quê nossa força e
inteligência está dedicada 8 das melhores horas de nosso dia, 65
dos melhores anos de nossas vidas; queremos as leis cumpridas, mesmo
sabendo da injustiça a que elas servem, mesmo sabendo da imoralidade
com que são elaboradas e executadas (desde os Césares); exigimos
que nossas autoridades solucionem nossas vidas, mesmo sabendo que são
os piores entre nós os colocados a nos liderar...
E
assim assisto aqueles mais sensíveis e amorosos entre nós caindo
nas drogas, fracassados, incapazes de se adaptar a artificialidade
cínica e burocratizada em que se transforma nossas vidas a cada dia
mais cedo, enquanto os indiferentes seguem evoluídos. (e os heróis
morrendo de overdose...) Os mais abastados acessam tarjas pretas,
mas o fato é que necessitamos das drogas para entorpecer nossa
sensibilidade e seguir esquecendo de nossas verdades profundas, nosso
abandono coletivo e a dominação da imoralidade instaurada de cima
para baixo em nossa sociedade.
Quem vai atirar a primeira pedra?
Quem vai atirar a primeira pedra?
Então,
me chamem para a rua sim, mas não para marchar sem direção, não
para cobrar de nossas autoridades políticas, porque essas só sabem
fazer guerra (e de extermínio), como agem os ignorantes. Me chamem
para a rua para olhar uns nos olhos dos outros, dar as mãos
corajosamente e assim enfrentar nossa própria hipocrisia, cúmplices,
e dar uns aos outros a coragem necessária para sairmos cada qual do
conforto da própria alienação escolhida, entrincheirados que
estamos em nossas próprias casas.
