13 de maio: Como ser livre sem ser dona de meu tempo?


_ NÃO GOSTO DE TRABALHAR!

Pessoas que me ouvem falar essa frase, todas reagem com desconforto diante dessa minha confissão, dita sempre em desabafo e confidência entre cúmplices, enquanto reclamamos em intimidade das condições de vida social a que nos submetemos cada vez que servimos ao próximo em troca de dinheiro... trabalho.

_ Não existe trabalho ruim. Ruim é ter que trabalhar! (Seu Madruga). Essa frase traduz com perfeição o que sinto diante de minha dimensão produtiva.

A dominação cultural é um fenômeno interessantíssimo de se pesquisar. Entendendo cultura como sendo o entendimento que se tem da vida, da existência e todas as criações, ações e convenções advindas dessa compreensão, a partir do momento que aceitamos uma determinada forma de vida, vinculamo-nos a todas as regras que esse pensamento, esse conceito, essa ideia sobre a vida manifesta: valores, ética e moral.

Observar a mudança de valor atribuída ao trabalho, por exemplo, em nossa sociedade é bastante revelador do movimento de dominação a que nos submetemos.

Reflito sobre o dia 13 de maio, dia da abolição da escravidão no Brasil. Acho no mínimo curioso, pra não dizer irônico, o fato de ser o dia do trabalhador feriado e o dia da libertação, não. Ou seja, trabalho no dia que representa o não trabalhar... Existem valores revelados aí. Por que “festejar” o dia do trabalhador, quando sentimo-nos extremamente explorados, desrespeitados, sabotados em nossa dignidade nessa dimensão da existência...? Feriado justificado pelo massacre sofrido por seres humanos unidos em busca da dignidade roubada pela venda de sua capacidade produtiva, mal trocada por direitos de vida. E por que não festejar a data que marca um passo em direção a superação do mal que existe na exploração do homem pelo homem, despertando para a necessidade de limite nessa relação desigual por essência?

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O meio ambiente do servidor público na cidade de Paraty é dos mais precários que uma estrutura administrativa pode oferecer a um equipamento de serviço público... e não é de agora, nem exclusividade dessa cidade, eu sei.

Trabalho por obrigação, naquilo que me é permitido colocar minha energia e ao retorno que me é oferecido. Assim é com meus ancestrais todos também, toda uma genealogia de submissão faz ao menos 3 gerações... tendo que trocar o tempo para pagar os custos de vida (acrescidos impostos, lucros, propaganda e desvios de verba diversos). Não reagimos mais... a lembrança da liberdade representada pela autonomia comunitária vai ficando cada vez mais distante e a aceitação resignada, presente.

Faço parte da classe de trabalhadores que são Servidores Públicos. Prestei prova de mérito para que especialistas pudessem avaliar o quanto de acesso aos direitos humanos eu teria, mediado e medido pelo valor do salário. Concurso público: Uma modalidade moderna daquele procedimento de mostrar os dentes e os músculos exigido às peças humanas no mercado negreiro que as pedras do Centro Histórico dessa cidade conhece bem e que à elite agrada guardar, festejar na memória (outra ironia perversa que aprendemos a celebrar como nossa cultura...).

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Semana passada fui informada de que um jovem atendido por mim ano passado no CRAS da Ilha das Cobras estava “trabalhando” para o tráfico de drogas. Encontrei casualmente com a mãe dele que me contou que desde a última vez que nos encontramos ela havia separa do marido, seus filhos ficaram deprimidos e, na sequência o menino de 16 anos começou a usar drogas. Ela procurou os órgãos públicos em busca de ajuda psicológica, mas antes que pudesse obter tal ajuda, seu filho encontrava-se endividado com a “boca”... para pagar a dívida havia feito seu primeiro trabalho:
_ Era ele ou eu, mãe. Disse ele a mãe e ela a mim...

Tudo isso aconteceu na vida dessa família em menos de 1 ano. Seu filho agora recebe o status de “trabalhador do tráfico”... chamo isso de escravidão por dívida, exploração do abandono, descaso.

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Viva a abolição da escravidão... seja lá o que isso possa significar.

Dia das Mães




A maternidade é o único momento em que o ser humano é "avaliado" por sua potencialidade animal, onde o aspecto racional é ignorado e a natureza compulsória "valorizada", "protegida"...

O único trabalho realizado em nossa sociedade dominante cuja a "moral" e "ética" proíbem a cobrança de dinheiro ou de qualquer compensação material para o exercício da função é o que envolve a tarefa de ser mãe. Nem mesmo a avaliação competitiva por mérito é permitida em busca de reconhecimento e valor (não existe concurso de melhor mãe do ano ou prêmio Nobel da maternidade...). O conhecimento acumulado, a eficiência do método desenvolvido ou a especialização da pesquisa humana aprimorada durante o desenvolvimento da carreira não adquire promoção diante da Academia Científica, o mercado ou a cultura.

(Se a Mãe cobrar do filho as atenções dispensadas em sua criação... já pensou o tamanho da dívida acumulada desde a cópula até o primeiro emprego? O valor cobrado por cada consulta que fazemos a nossas mães sobre nós mesmos...quanto custaria?)

Todas as atividades desenvolvidas no ambiente de trabalho da mãe, são indignas se vistas pela perspectiva dos direitos trabalhistas: jornada de trabalho, disponibilidade para o serviço, condições de insalubridade do exercício da função, física e mental (índices não faltam sobre a frequência feminina em postos de saúde, psiquiátricos e policiais, quase sempre acompanhando suas crias... em exercício da função maternal) e total ausência de bonificação ou mérito.

Invisibilidade cultural completa.
Mas tem o dia das mães...

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_ Não tem ciência!
Insistia dona Maria, tentando dar-me a receita de seu delicioso vatapá escondendo-me o segredo:
_ Mas Dona Maria, é só isso mesmo? Tem certeza que a senhora me deu a receita certinha?
_ Não tem ciência, Carla! Tá tudo certinho, é assim mesmo!

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Se amor é aquele sentimento descrito por Paulo de Tarso, o Apóstolo das Cartas (...é um estar-se preso por vontade; é seguir a quem vence, ao vencedor; é um ter por quem nos mata lealdade...) então é encontrado nas cozinhas mais que nos quartos, e na imagem de deus não é a de Maria menos que a de Jesus.

A história de Maria vem sendo cada vez mais esquecida, sobretudo nas correntes de pensamento religioso protestante.

Quando lembrada, Maria aparece numa estátua exibida na praça em dia de festa, bordada na blusa em desfile de moda... idolatrada imagem.

Se a Bíblia é a história de pessoas atuantes, vivas, encarnadas e não de seres encantados em nuvens celestiais... então deixemos de adorar imagens (sejam imaginadas ou de cobre) e honremos noss@s ancestrais!


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Quando anunciei a minha avó Maria Izabel minha partida em direção a Bahia ela virou-se imediatamente para minha companheira de pele carregada de melanina e ordenou: _ Não vá levar minha neta pra macumba, hein? Dizem que tem muita macumba na Bahia.

Foi a deixa que eu precisava para conversar com ela sobre um assunto proibidíssimo em minha família evangélica. Minhas idas ao candomblé. Ela que nunca havia ido a macumba, me disse que gostaria de saber como é... conversamos e rimos um bocado naquela tarde em seu quintal de Santa Cruz.

Os terreiros de umbanda que conheci são casas aconchegantes, acolhedoras. Um quintal com árvores sacralizadas, grutas encantadas, energizadas diariamente com a força da devoção e comida farta e saborosa...

No quintal de minha avó Regina, mãe de meu pai, encontrava esse espírito acolhedor, as árvores e a devoção, mesmo sendo de família evangélica.

O fato de ter ficado viúva muito cedo, com crianças em casa para criar, minha avó não tinha como estar sempre na igreja, com isso era comum vê-la de joelhos ao pé da cama orando ou lendo a Bíblia. Os encargos com a casa e @s filh@s ocupavam-lhe à exaustão, física e emocional. No entanto, era pessoa amável e acolhedora. A casa sempre desarrumada, mas com um delicioso doce em calda, ou bolo, ou outra delícia que ela aprontava imediatamente para aquele que chegava e sempre estava chegando alguém...


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Tem ciência sim! O quindim de minha mãe é o mais gostoso.

_ Mããêêê, será que você faria aquele quindão pra gente comer de sobremesa no dia das mães?!