_ NÃO GOSTO DE TRABALHAR!
Pessoas que me ouvem falar essa frase,
todas reagem com desconforto diante dessa minha confissão, dita
sempre em desabafo e confidência entre cúmplices, enquanto
reclamamos em intimidade das condições de vida social a que nos
submetemos cada vez que servimos ao próximo em troca de dinheiro...
trabalho.
_ Não existe trabalho ruim. Ruim é
ter que trabalhar! (Seu Madruga). Essa frase traduz com perfeição o
que sinto diante de minha dimensão produtiva.
A dominação cultural é um fenômeno
interessantíssimo de se pesquisar. Entendendo cultura como sendo o
entendimento que se tem da vida, da existência e todas as criações,
ações e convenções advindas dessa compreensão, a partir do
momento que aceitamos uma determinada forma de vida, vinculamo-nos a
todas as regras que esse pensamento, esse conceito, essa ideia sobre
a vida manifesta: valores, ética e moral.
Observar a mudança de valor atribuída
ao trabalho, por exemplo, em nossa sociedade é bastante revelador do
movimento de dominação a que nos submetemos.
Reflito sobre o dia 13 de maio, dia da
abolição da escravidão no Brasil. Acho no mínimo curioso, pra não
dizer irônico, o fato de ser o dia do trabalhador feriado e o dia da
libertação, não. Ou seja, trabalho no dia que representa o não
trabalhar... Existem valores revelados aí. Por que “festejar” o
dia do trabalhador, quando sentimo-nos extremamente explorados,
desrespeitados, sabotados em nossa dignidade nessa dimensão da
existência...? Feriado justificado pelo massacre sofrido por seres
humanos unidos em busca da dignidade roubada pela venda de sua
capacidade produtiva, mal trocada por direitos de vida. E por que não
festejar a data que marca um passo em direção a superação do mal
que existe na exploração do homem pelo homem, despertando para a
necessidade de limite nessa relação desigual por essência?
***
O meio ambiente do servidor público na
cidade de Paraty é dos mais precários que uma estrutura
administrativa pode oferecer a um equipamento de serviço público...
e não é de agora, nem exclusividade dessa cidade, eu sei.
Trabalho por obrigação, naquilo que
me é permitido colocar minha energia e ao retorno que me é
oferecido. Assim é com meus ancestrais todos também, toda uma
genealogia de submissão faz ao menos 3 gerações... tendo que
trocar o tempo para pagar os custos de vida (acrescidos impostos,
lucros, propaganda e desvios de verba diversos). Não reagimos
mais... a lembrança da liberdade representada pela autonomia
comunitária vai ficando cada vez mais distante e a aceitação
resignada, presente.
Faço parte da classe de trabalhadores
que são Servidores Públicos. Prestei prova de mérito para que
especialistas pudessem avaliar o quanto de acesso aos direitos
humanos eu teria, mediado e medido pelo valor do salário. Concurso
público: Uma modalidade moderna daquele procedimento de mostrar os
dentes e os músculos exigido às peças humanas no mercado negreiro
que as pedras do Centro Histórico dessa cidade conhece bem e que à
elite agrada guardar, festejar na memória (outra ironia perversa que
aprendemos a celebrar como nossa cultura...).
***
Semana passada fui informada de que um
jovem atendido por mim ano passado no CRAS da Ilha das Cobras estava
“trabalhando” para o tráfico de drogas. Encontrei casualmente
com a mãe dele que me contou que desde a última vez que nos
encontramos ela havia separa do marido, seus filhos ficaram
deprimidos e, na sequência o menino de 16 anos começou a usar
drogas. Ela procurou os órgãos públicos em busca de ajuda
psicológica, mas antes que pudesse obter tal ajuda, seu filho
encontrava-se endividado com a “boca”... para pagar a dívida
havia feito seu primeiro trabalho:
_ Era ele ou eu, mãe. Disse ele a mãe
e ela a mim...
Tudo isso aconteceu na vida dessa
família em menos de 1 ano. Seu filho agora recebe o status de
“trabalhador do tráfico”... chamo isso de escravidão por
dívida, exploração do abandono, descaso.
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Viva a abolição da escravidão...
seja lá o que isso possa significar.
