São Jorge e o dragão da fobia.



Anseio pelo dia em que a humanidade estará evoluída ao ponto de ao invés de ver sentido em repreender a expressão homo afetiva em respeito a presença homofóbica, entender que deve desqualificar toda expressão fóbica em respeito a qualquer presença afetiva, ainda que "anormal".

Aproveito o legado de Martin Luter King Jr para dizer que não me surpreende a loucura dos ignorantes, mas a cumplicidade dos esclarecidos. Pessoas que depois de declararem total compreensão quanto a dignidade homossexual, defendem sua invisibilidade diante “dos outros”.

Nessa hora clamo pela força que o arquétipo de São Jorge representa e busco sensibilizar, sobretudo os de boa fé, a usar essa força interior que habita a todos nós para reconhecer dentro de si a existência do perverso dragão do medo, opressão e controle, lançando a luz da consciência sobre ele, dissipando-o.

Já é tempo de entendermos que a dor que nos tortura a alma e que nos leva a desrespeitar famílias homossexuais, pessoas com mais melanina na pele do que temos, ou a mulher que exibe sua libido na praça não é provocada por nenhum desses fatos em si, mas pela atitude de negação diante deles e que ter um enorme número de pessoas compartilhando nossa ofensa não faz com que a escuridão diminua, mas a aumenta (ser seguido por milhões de pessoas – alemães, italianos e japoneses – não fez de Hitler um iluminado, nem garantiu êxito em sua busca de eliminar humanos anormais).

Deve-se considerar a aceitação do diferente, se não por motivos de consciência, pelos de inteligência, pois mesmo com toda a violência que os violentos insistem em usar contra os diferentes, a diversidade prevalece, é tipica da criação. Achar possível impor um padrão de humano a existência não é sensato. O único êxito possível nesse combate é o da permanência no conflito.

“Livrai da aparência do mau”, ensinamento muito comum na ética judaico cristã que entendo aconselhar sobre o perigo de se deixar enganar pela aparência, julgando erradamente uma pessoa por parecer má sem verificar a verdade, mas que “cegos que guiam cegos” em nossa tradição ensinam que o indivíduo deve adaptar sua aparência ao sabor do limitado julgamento alheio, escondendo sua verdade. Assim construímos um mundo fútil, onde a forma é mais importante que o conteúdo.

Cito o Rabino Abraham Skorba, que falando sobre o homossexual afirma: “eu respeito qualquer indivíduo, desde que mantenha uma atitude de recato e intimidade” , como fundamento da ética perversa que contamina todas as relações sociais no mundo moderno, contemplando a falsidade, a hipocrisia e o cinismo medíocre. ( publicado na edição 2316 da Veja)

A cultura ocidental vê mérito em burlar o falso julgamento com a falsa aparência (lembrei agora do “sapo barbudo” que se transformou em “Lulinha paz e amor” para alcançar o poder.) e depois não entende o colapso moral a que nos encontramos... achamos indigno o dinheiro gasto em projetos sociais, mas aceitamos de bom grado pagar 3, 4, 5 vezes mais caro no mesmo produto quando apresentado em embalagem que imprima uma estética mais agradável, familiar... respeitamos profissionais especializados em falsear o conteúdo com uma forma enganadora. Quanto mais enganadores nos tornamos, mais valorizados somos. Digo isso sendo técnica em publicidade

Pedir ao homossexual para respeitar o homofóbico é escurecer a ambos e entrar com eles na escuridão... ser homossexual e aceitar a invisibilidade, reprimindo o afeto espontâneo em público, é viver em conflito, alimentando o dragão interno, se deixando devorar por ele.

Que, antes de interferir no comportamento alheio, saibamos a distinção entre respeitar o medo que só sente quem está na escuridão e respeitar a verdade alegre de quem segue livre, alheio a escuridão. Porque respeitar o medo é intensificar o conflito e ter compaixão dele é lançar-lhe luz.

Na paz do Senhor, sigamos livres, sem julgar insensatamente e sem se abalar com julgadores insensatos, libertemos uns aos outros para a harmonia de todos, principalmente das crianças, a quem o futuro pertence.

Salve Jorge!

Tiradentes e o enforcado.




21 de abril entra para a história do Brasil como sendo o dia de Tiradentes, feriado nacional que lembra o herói punido com enforcamento pelo império português por ter participado da conspiração que buscava a liberdade de Minas Gerais do domínio da Coroa.

Ao condenar Tiradentes o Governo poderia ter escolhido diversas formas de punição, mas o enforcamento carrega um simbolismo específico em nossa cultura judaico cristã: a marca do traidor. Marca essa que se inscreve em nosso imaginário pelo suicídio de Judas, delator de Jesus que, arrependido da traição cometida, se enforca. Significado mantido vivo na tradição de “malhar o Judas” no Sábado de Aleluia, durante a Páscoa, quando a população aproveita para expressar sua indignação com aqueles vistos como perversamente falsos entre nós, simbolicamente enforcados nesse dia.

Esse ano os 2 episódios se fazem presentes em um só feriadão (Páscoa e Tiradentes) e enriquecem minhas reflexões: traição e arrependimento, punição e culpa.

Em Paraty no ano passado 4 adolescentes cometeram suicídio por enforcamento, esse ano 1 jovem, todos caiçaras. Tendo trabalhado com adolescentes no primeiro semestre do ano passado e trabalhando agora com comunidades tradicionais, essas mortes me inquietaram e me puseram a trabalhar para compreender o que elas revelam sobre o momento em que vivemos em sociedade.

A forca traz em si um poderoso arquétipo registrado em sistemas de sabedoria como o Tarot, jogo místico de autoconhecimento e revelação anterior a Judas, parte integrante de sua educação ancestral judaica. Significa aquele que se encontra em confronto com sua tradição, que visto pelo sistema instituído na normalidade parece vítima de tortura, mas que observado de ponta cabeça está dançando com leveza. Revela a situação em que a pessoa se coloca voluntariamente na posição de tortura social, de vergonha e vexame por estar seguindo a uma convicção interior, incompreensível ao observador externo.

Quando Judas decidiu se matar poderia tê-lo feito de diversas maneiras, mas enforcou-se numa árvore (também arquetípica, diga-se de passagem). Que tipo de sentimento terá feito escolher tal fim? Pergunto-me também sobre os jovens caiçaras... poderiam ter cortado a jugular, ou os pulsos num gesto de impulso irreversível, mas não, escolheram elaborar toda a engrenagem de cordas, apoio suspenso, nó adequado... que tipo de situação leva a essa representação? Me pergunto e me pergunto. Qual informação se traduz nessa metáfora: traição ou arrependimento.

Seja como for a interrupção da vida de um jovem é constrangedora para a comunidade a que pertence, a desarmonia parece contagiante (não foram nem um, nem dois, mas 5 nos últimos meses), de alguma forma um parece compreender e confirmar a atitude do outro. De alguma forma o sentimento de um despertou seu semelhante em manifesta reação.

Até que ponto podemos olhar para esse fato de forma pessoal e individualizada?

Tiradentes foi enforcado em praça pública. Não bastou constrangê-lo com a marca da traição, foi necessário tê-lo por exemplo para que tal conspiração não mais acontecesse. Seu corpo foi esquartejado e seus pedaços espalhados pela cidade como forma de humilhação e ameaça. O enforcado carrega a marca da vergonha, do constrangimento, é uma morte indigna. A garganta, local da voz, é oprimida. As palavras como instrumento de conspiração para Tiradentes, de traição para Judas são oprimidas, seu instrumento irremediavelmente quebrado e a morte como consequência da tortura do veículo do ar, do alimento e do som da vida.

O enforcamento acontece pela opressão simbólica da identidade (auto)punida: para Judas, diante da cultura ética; para Tiradentes, da cultura política e para os jovens paratienses, da cultura caiçara...

Reflito agora sem indignação, mas comprometida na busca não de culpado (trabalho de padre e de juiz), mas de solução para a desarmonia extremada, mortal, que ronda minha vizinhança.

Antes de construir a mudança, urge compreender o universo onde está interferindo, para que “a emendanão saia pior do que o soneto”.

Sobre a Páscoa.


Faz algum tempo que entendi que as informações encontradas na Bíblia nos chegam com deformações diversas devido à seleção e copilação dos livros, tradução dos textos, distância histórica e cultural entre os signos descritos e os significados atribuídos a eles.

Sem dúvida alguma a revolta protestante permitiu um avanço crítico considerável ao exigir acesso direto as escrituras. Sem a imposição do intermediário clérigo podemos nos expor diretamente aos obstáculos colocados entre nós e a sabedoria revelada ali de modo a deixar que o amor desperte em nós ao encontrar seu correspondente entre linhas.

Gosto de ler os evangelhos (principalmente o de João: “aquele a quem Jesus mais amou”...), encontro na história de Jesus, nos fatos ocorridos mais do que em parábolas e conselhos, o ponto determinante onde nos encontramos parados, a verdade sobre a vida em sociedade. Sinto que a atitude de sua pessoa diante do contexto do mundo que vivia aponta para o ponto de partida no qual permanecemos estagnados ainda hoje. Por estar preso a um livro com início meio e fim, entendemos ser a vida de Jesus a conclusão da história de Deus na terra, quando é apenas o começo. Somos levados a essa compreensão por nos entendermos separados Dele, quando somos um com ele. Somos Deus vivo, mas esquecido... (reflito se em termos de representação da verdade da vida a história oral, dinâmica e sem autor, apresentaria ganhos consideráveis comparada a escrita, estática e com autoridade).

Observo que a biografia de Jesus nos revela um contexto social onde a elite no poder está cega e corrompida e ainda assim se impõe como guia diante de pessoas simples, colocadas a seu dispor, sensíveis e honestas, exploradas e enganadas ao sabor da futilidade e arrogância da matéria esquecida do espírito.

Jesus assumiu o risco que qualquer cidadão corria ao se libertar da opressão mental, espiritual e material a que estavam submetidos todos que buscassem sua realização fora dos ditames das autoridades autorizadas e cumpriu o destino dos rebeldes ilegais. Ousou relacionar-se diretamente com o dom da vida e a vida lhe correspondeu, revelou o divino que habita toda a criação, alcançou o ilimitado, rompeu a ilusão colocada entre a vida e a morte.

O episódio ocorrido na páscoa é especificamente revelador da forma com que a mentalidade no poder impõe sua verdade. Como os detentores do conhecimento do comportamento humano manipulam a opinião pública para que a vontade da minoria prevaleça.

Pensar que muitos daqueles que se encontravam na praça haviam jejuado em preparação as celebrações pascoais, acabavam de oferecer sacrifícios a Jeová em busca de perdão e benção, vinham de longe para expiar os pecados e depois seguir para a praça em festa onde todos os anos um condenado era libertado, tradição banal para o público: _ Cara ou coroa? Barrabás ou Jesus? Ao escolherem colocar Barrabás, o popular, no confronto com Jesus os articuladores no comando sabiam que as chances do Cristo eram ínfimas. (É a copa do mundo distraindo a invasão do capital estrangeiro por um lado e a evasão do capital nacional de outro...)

Mais de dois mil anos se passaram, a história de Jesus atravessou o mar e ganhou versões em diversas línguas (os sincretismos garantem sua permanência entre nós com a páscoa de chocolates e o natal com laço colorido), com ela veio também a sociedade em que ele nasceu (Constantino sabia o que fazia quando copilou velho e novo testamentos...). Aceitamos os mesmos cegos corrompidos no poder autorizado, a mesma violência escravocrata, a demagogia hipócrita e a covardia cínica. Seguimos condenando os anormais menos populares em praça pública em dias de festa e aguardando a volta do messias, salvador de nossas ofensas...

Não precisamos entrar no aspecto místico da revelação para encontrar nos evangelhos a fonte da libertação, basta aprendermos ali a questionar a autoridade daqueles que ainda hoje se colocam diante de nós regulando e trabalhando para tornar a vida em sociedade sempre mais complexa, para parecerem indispensáveis. Colocados entre nós e o saber (escribas), a justiça (governo), o prover (negociantes) ou entre nós e o mistério (sacerdotes).

Basta que deixemos de ser uma massa para sermos únicos.

Agradeço ao filho de Maria por ter sido destemido diante da cegueira humana. Agradeço aos protestantes que abriram os caminhos em direção ao livre acesso ao saber, a luz.

Cabe agora a nós, frutos consequentes potenciais dessa coragem toda, irmos mais além, assumirmos nossa própria revelação, nossa irmandade em Cristo, sem intermediários. Entre nós e a vida apenas o Cristo, nenhum homem (ou mulher), nenhum pastor, professor, governador, escritor, patrão ou mesmo pai (“não devemos amar mais a pai e mãe do que a Deus”). Entendermos que cada um recebe uma mensagem exclusiva do Pai, enviada pelo Filho, entregue pessoalmente e aplicada ao contexto do agora. Que apenas nós podemos revelar a mensagem em nossa vida, vê-la manifestada diante de nós.

É perigoso. Mas com coragem (seguir o coração) podemos ir além e encontrar o céu na terra!

Celebrando o Primeiro de Abril


Tive sempre motivos para celebrar esse dia... Primeiro porque era aniversário da mãe de minha mãe: Dona Maria Izabel, a quem muitos me viram referir como sendo minha avó má. Lembrada tantas vezes em anedotas como sendo a “sogra”. Ter nascido no dia da mentira reforçava o mito sobre ela.

Depois por conta de outro aniversariante não menos anedótico: Professor Arthur, coronel da ditadura militar, a quem devo gratidão e afeto e que, a pesar da total discordância ideológica que nutríamos solidariamente, trago constantemente em minhas reflexões sobre os noticiários do contexto geopolítico, econômico e social da cultura racional.

Ambos octogenários, fizeram a travessia para o mundo de Hades no mesmo ano....lembro-me deles no dia de hoje, fazia os dois telefonemas em seqüência nessa data... ouvia os mesmos lamentos de quem percebia chegar o fim da vida. Desconfiados de que haviam sido iludidos pelo destino.

Lembrar dela escondendo o queijo e biscoitos do café da manhã para não compartilhar comigo que, criança, sofria de desejo e gula. Pensar nele afirmando que a ditadura brasileira matou e torturou pouco perto de outras contemporâneas suas, lamentando, para me provocar, ter livrado Chico Buarque que, segundo ele, manchava a MPB com sua mediocridade.

Mas afinal, o que é a verdade? Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade. Uma verdade revelada mil vezes torna-se banal!

Artur se formou na mesma turma do Ex-Presidente General Figueiredo. Minha avó era evangélica, batizada na Assembléia de Deus, empregada doméstica, mãe de 10 filhos, moradora da estação final do trem da Central, (lugar por onde Judas passou sem botas...) que por ironia chama-se Santa Cruz...

De um lado o homem branco, erudito, ateu, abastado e infiel. De outro a mulher índia, analfabeta, crente, pobre e fidelíssima (ta aí meu avô, seu marido, que aos 93 anos de idade não me deixa mentir).

Rebeldes, cada qual a sua maneira: ele adorava samba, fez parceria com Cartola e não chegou a General por ter socado um superior, contava redimindo-se. Enquanto ela, percebendo minha sexualidade anormal, dizia que se fosse jovem hoje em dia não iria querer saber de homem.

Autoridades morais em seus domínios, superiores em suas patentes culturais diante de mim: aluna e neta. O sombrio universo doméstico mais rude dialogando em meu ser com o universo institucional igualmente rude e sombrio. Pude perceber comparativamente as semelhanças na base conceitual onde construíram suas personalidades antagônico-complementares, suas ideologias, seus egos.

Maria Izabel é neta de família de aristocratas portugueses. Sua mãe, por ter casado com primo bastardo de descendência indígena, foi deserdada e expulsa de casa, viveu pelas ruas com sua família, passando fome com os filhos, pedinte (como tantas vezes me deparo e me solidarizo nas esquinas das grandes e ricas metrópoles do mundo globalizado), vítima da moral cristã que defendia.

“_ Andávamos para lá e para cá atrás de alguma coisa com que papai pudesse ganhar um dinheiro.” Dizia minha avó. “_ Muitas vezes dormimos em acampamentos ciganos, que eram os únicos que nos acolhiam.” Enfatizando os perigos pelos que passaram. Para traduzir sua fala eu diria que dormir em acampamento cigano seria tão perigoso quanto numa boca de fumo hoje em dia, ou em comitê do partido comunista em tempos da dita dura. A força militar modifica o público-alvo, a moralidade no poder instituído mira outras culturas, colocando-as na ilegalidade, tornadas assim perigosas... cigano, maconheiro, comunista, macumbeiro...

Quando os Generais deram o golpe na política eleitoreira, o poder diplomático e de guerra assumiu o controle instituído no país (nos países), garantindo o monopólio, sobretudo ideológico, nas mãos dos mesmos poucos que continuam hoje posando de primeiro de abril.

O tempo histórico é transversal e assimétrico que rasga as estatísticas com suas variações geográficas, de gênero e de cor, em todo o globo terrestre... Lembro dos episódios de Matrix. Num deles tem um Chaveiro como personagem peça de quebra-cabeça com poder de abrir dimensões... Chaves temos demais, aprendi, o problema é saber qual será a porta que nos levará para a dimensão ideal, da verdade de verdade.

Vivemos a abertura, livres da ditadura da opressão da Coroa, confundida com a Cruz, mesmo rompida com ela... Seguimos rompendo: Independência, Proclamação da República,  República Nova, República Velha, Estado Novo...

Celebro Artur e Maria, Rei e Rainha mais que clássicos na literatura. 

Arthur bem sabia disso, letrado, erudito da mais alta Academia no comando do país: A Academia Superior de Guerra do Exército Brasileiro, que mantém a soberania daqueles que se apropriam por pacto e conquista do território brasileiro desde o Tratado de Tordesilhas... 

Minha avó também tinha consciência da Maria Santa que tem o filho carregando a cruz de seus ensinamentos. 

Jesus foi criado por mãe judia que conhecia o TaroT e a ToraT, conhecia os mistérios da ┼, dos sacrifícios feitos a carne, conviveu com a matança ritual dos pagãos, era dominada por eles. Conhecia a sede por morte que os Deuses pagãos exigiam e fazia ela mesma seu ritual de sacrifício a Jeová, Josias. Jesus, seu filho, seguiu seus ensinamentos ancestrais e acabou oferecido a ┼ por seus iguais.