Faz algum tempo que entendi que as
informações encontradas na Bíblia nos chegam com deformações
diversas devido à seleção e copilação dos livros, tradução dos
textos, distância histórica e cultural entre os signos descritos e
os significados atribuídos a eles.
Sem dúvida alguma a revolta
protestante permitiu um avanço crítico considerável ao exigir
acesso direto as escrituras. Sem a imposição do intermediário
clérigo podemos nos expor diretamente aos obstáculos colocados
entre nós e a sabedoria revelada ali de modo a deixar que o amor
desperte em nós ao encontrar seu correspondente entre linhas.
Gosto de ler os evangelhos
(principalmente o de João: “aquele a quem Jesus mais amou”...),
encontro na história de Jesus, nos fatos ocorridos mais do que em
parábolas e conselhos, o ponto determinante onde nos encontramos
parados, a verdade sobre a vida em sociedade. Sinto que a atitude de
sua pessoa diante do contexto do mundo que vivia aponta para o ponto
de partida no qual permanecemos estagnados ainda hoje. Por estar
preso a um livro com início meio e fim, entendemos ser a vida de
Jesus a conclusão da história de Deus na terra, quando é apenas o
começo. Somos levados a essa compreensão por nos entendermos
separados Dele, quando somos um com ele. Somos Deus vivo, mas
esquecido... (reflito se em termos de representação da verdade da
vida a história oral, dinâmica e sem autor, apresentaria ganhos
consideráveis comparada a escrita, estática e com autoridade).
Observo que a biografia de Jesus nos
revela um contexto social onde a elite no poder está cega e
corrompida e ainda assim se impõe como guia diante de pessoas
simples, colocadas a seu dispor, sensíveis e honestas, exploradas e
enganadas ao sabor da futilidade e arrogância da matéria esquecida
do espírito.
Jesus assumiu o risco que qualquer
cidadão corria ao se libertar da opressão mental, espiritual e
material a que estavam submetidos todos que buscassem sua realização
fora dos ditames das autoridades autorizadas e cumpriu o destino dos
rebeldes ilegais. Ousou relacionar-se diretamente com o dom da vida e
a vida lhe correspondeu, revelou o divino que habita toda a criação,
alcançou o ilimitado, rompeu a ilusão colocada entre a vida e a
morte.
O episódio ocorrido na páscoa é
especificamente revelador da forma com que a mentalidade no poder
impõe sua verdade. Como os detentores do conhecimento do
comportamento humano manipulam a opinião pública para que a vontade
da minoria prevaleça.
Pensar que muitos daqueles que se
encontravam na praça haviam jejuado em preparação as celebrações
pascoais, acabavam de oferecer sacrifícios a Jeová em busca de
perdão e benção, vinham de longe para expiar os pecados e depois
seguir para a praça em festa onde todos os anos um condenado era
libertado, tradição banal para o público: _ Cara ou coroa?
Barrabás ou Jesus? Ao escolherem colocar Barrabás, o popular, no
confronto com Jesus os articuladores no comando sabiam que as chances
do Cristo eram ínfimas. (É a copa do mundo distraindo a invasão do
capital estrangeiro por um lado e a evasão do capital nacional de
outro...)
Mais de dois mil anos se passaram, a
história de Jesus atravessou o mar e ganhou versões em diversas
línguas (os sincretismos garantem sua permanência entre nós com a
páscoa de chocolates e o natal com laço colorido), com ela veio
também a sociedade em que ele nasceu (Constantino sabia o que fazia
quando copilou velho e novo testamentos...). Aceitamos os mesmos
cegos corrompidos no poder autorizado, a mesma violência
escravocrata, a demagogia hipócrita e a covardia cínica. Seguimos
condenando os anormais menos populares em praça pública em dias de
festa e aguardando a volta do messias, salvador de nossas ofensas...
Não precisamos entrar no aspecto
místico da revelação para encontrar nos evangelhos a fonte da
libertação, basta aprendermos ali a questionar a autoridade
daqueles que ainda hoje se colocam diante de nós regulando e
trabalhando para tornar a vida em sociedade sempre mais complexa,
para parecerem indispensáveis. Colocados entre nós e o saber
(escribas), a justiça (governo), o prover (negociantes) ou entre nós
e o mistério (sacerdotes).
Basta que deixemos de ser uma massa
para sermos únicos.
Agradeço ao filho de Maria por ter
sido destemido diante da cegueira humana. Agradeço aos protestantes
que abriram os caminhos em direção ao livre acesso ao saber, a luz.
Cabe agora a nós, frutos consequentes
potenciais dessa coragem toda, irmos mais além, assumirmos nossa
própria revelação, nossa irmandade em Cristo, sem intermediários.
Entre nós e a vida apenas o Cristo, nenhum homem (ou mulher), nenhum
pastor, professor, governador, escritor, patrão ou mesmo pai (“não
devemos amar mais a pai e mãe do que a Deus”). Entendermos que
cada um recebe uma mensagem exclusiva do Pai, enviada pelo Filho,
entregue pessoalmente e aplicada ao contexto do agora. Que apenas nós
podemos revelar a mensagem em nossa vida, vê-la manifestada diante
de nós.
É perigoso. Mas com coragem (seguir o
coração) podemos ir além e encontrar o céu na terra!
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