Celebrando o Primeiro de Abril


Tive sempre motivos para celebrar esse dia... Primeiro porque era aniversário da mãe de minha mãe: Dona Maria Izabel, a quem muitos me viram referir como sendo minha avó má. Lembrada tantas vezes em anedotas como sendo a “sogra”. Ter nascido no dia da mentira reforçava o mito sobre ela.

Depois por conta de outro aniversariante não menos anedótico: Professor Arthur, coronel da ditadura militar, a quem devo gratidão e afeto e que, a pesar da total discordância ideológica que nutríamos solidariamente, trago constantemente em minhas reflexões sobre os noticiários do contexto geopolítico, econômico e social da cultura racional.

Ambos octogenários, fizeram a travessia para o mundo de Hades no mesmo ano....lembro-me deles no dia de hoje, fazia os dois telefonemas em seqüência nessa data... ouvia os mesmos lamentos de quem percebia chegar o fim da vida. Desconfiados de que haviam sido iludidos pelo destino.

Lembrar dela escondendo o queijo e biscoitos do café da manhã para não compartilhar comigo que, criança, sofria de desejo e gula. Pensar nele afirmando que a ditadura brasileira matou e torturou pouco perto de outras contemporâneas suas, lamentando, para me provocar, ter livrado Chico Buarque que, segundo ele, manchava a MPB com sua mediocridade.

Mas afinal, o que é a verdade? Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade. Uma verdade revelada mil vezes torna-se banal!

Artur se formou na mesma turma do Ex-Presidente General Figueiredo. Minha avó era evangélica, batizada na Assembléia de Deus, empregada doméstica, mãe de 10 filhos, moradora da estação final do trem da Central, (lugar por onde Judas passou sem botas...) que por ironia chama-se Santa Cruz...

De um lado o homem branco, erudito, ateu, abastado e infiel. De outro a mulher índia, analfabeta, crente, pobre e fidelíssima (ta aí meu avô, seu marido, que aos 93 anos de idade não me deixa mentir).

Rebeldes, cada qual a sua maneira: ele adorava samba, fez parceria com Cartola e não chegou a General por ter socado um superior, contava redimindo-se. Enquanto ela, percebendo minha sexualidade anormal, dizia que se fosse jovem hoje em dia não iria querer saber de homem.

Autoridades morais em seus domínios, superiores em suas patentes culturais diante de mim: aluna e neta. O sombrio universo doméstico mais rude dialogando em meu ser com o universo institucional igualmente rude e sombrio. Pude perceber comparativamente as semelhanças na base conceitual onde construíram suas personalidades antagônico-complementares, suas ideologias, seus egos.

Maria Izabel é neta de família de aristocratas portugueses. Sua mãe, por ter casado com primo bastardo de descendência indígena, foi deserdada e expulsa de casa, viveu pelas ruas com sua família, passando fome com os filhos, pedinte (como tantas vezes me deparo e me solidarizo nas esquinas das grandes e ricas metrópoles do mundo globalizado), vítima da moral cristã que defendia.

“_ Andávamos para lá e para cá atrás de alguma coisa com que papai pudesse ganhar um dinheiro.” Dizia minha avó. “_ Muitas vezes dormimos em acampamentos ciganos, que eram os únicos que nos acolhiam.” Enfatizando os perigos pelos que passaram. Para traduzir sua fala eu diria que dormir em acampamento cigano seria tão perigoso quanto numa boca de fumo hoje em dia, ou em comitê do partido comunista em tempos da dita dura. A força militar modifica o público-alvo, a moralidade no poder instituído mira outras culturas, colocando-as na ilegalidade, tornadas assim perigosas... cigano, maconheiro, comunista, macumbeiro...

Quando os Generais deram o golpe na política eleitoreira, o poder diplomático e de guerra assumiu o controle instituído no país (nos países), garantindo o monopólio, sobretudo ideológico, nas mãos dos mesmos poucos que continuam hoje posando de primeiro de abril.

O tempo histórico é transversal e assimétrico que rasga as estatísticas com suas variações geográficas, de gênero e de cor, em todo o globo terrestre... Lembro dos episódios de Matrix. Num deles tem um Chaveiro como personagem peça de quebra-cabeça com poder de abrir dimensões... Chaves temos demais, aprendi, o problema é saber qual será a porta que nos levará para a dimensão ideal, da verdade de verdade.

Vivemos a abertura, livres da ditadura da opressão da Coroa, confundida com a Cruz, mesmo rompida com ela... Seguimos rompendo: Independência, Proclamação da República,  República Nova, República Velha, Estado Novo...

Celebro Artur e Maria, Rei e Rainha mais que clássicos na literatura. 

Arthur bem sabia disso, letrado, erudito da mais alta Academia no comando do país: A Academia Superior de Guerra do Exército Brasileiro, que mantém a soberania daqueles que se apropriam por pacto e conquista do território brasileiro desde o Tratado de Tordesilhas... 

Minha avó também tinha consciência da Maria Santa que tem o filho carregando a cruz de seus ensinamentos. 

Jesus foi criado por mãe judia que conhecia o TaroT e a ToraT, conhecia os mistérios da ┼, dos sacrifícios feitos a carne, conviveu com a matança ritual dos pagãos, era dominada por eles. Conhecia a sede por morte que os Deuses pagãos exigiam e fazia ela mesma seu ritual de sacrifício a Jeová, Josias. Jesus, seu filho, seguiu seus ensinamentos ancestrais e acabou oferecido a ┼ por seus iguais.

Um comentário:

  1. Carla, fiquei grata com a lembrança e o lúcido comentário sobre Arthur, muito diverso meu, emocionado discurso de filha. Sob a ótica do amor, já bem perto do fim, ele enxergou não só os desmandos da 'esquerda' como os da 'direita' - por vezes tão semelhantes! - e conseguiu ter a consciência de que o mundo não era tão maniqueísta quanto ele o vivera. Mas não dava mais tempo de mudar. Então, ele repetia, aliviado: "Ainda bem que eu vou morrer"! Carla, tenho muito boas lembranças suas, criaturinha singular! Mas, uma coisa vejo, com muita alegria: como você cresceu! Bjs

    ResponderExcluir