Tiradentes e o enforcado.




21 de abril entra para a história do Brasil como sendo o dia de Tiradentes, feriado nacional que lembra o herói punido com enforcamento pelo império português por ter participado da conspiração que buscava a liberdade de Minas Gerais do domínio da Coroa.

Ao condenar Tiradentes o Governo poderia ter escolhido diversas formas de punição, mas o enforcamento carrega um simbolismo específico em nossa cultura judaico cristã: a marca do traidor. Marca essa que se inscreve em nosso imaginário pelo suicídio de Judas, delator de Jesus que, arrependido da traição cometida, se enforca. Significado mantido vivo na tradição de “malhar o Judas” no Sábado de Aleluia, durante a Páscoa, quando a população aproveita para expressar sua indignação com aqueles vistos como perversamente falsos entre nós, simbolicamente enforcados nesse dia.

Esse ano os 2 episódios se fazem presentes em um só feriadão (Páscoa e Tiradentes) e enriquecem minhas reflexões: traição e arrependimento, punição e culpa.

Em Paraty no ano passado 4 adolescentes cometeram suicídio por enforcamento, esse ano 1 jovem, todos caiçaras. Tendo trabalhado com adolescentes no primeiro semestre do ano passado e trabalhando agora com comunidades tradicionais, essas mortes me inquietaram e me puseram a trabalhar para compreender o que elas revelam sobre o momento em que vivemos em sociedade.

A forca traz em si um poderoso arquétipo registrado em sistemas de sabedoria como o Tarot, jogo místico de autoconhecimento e revelação anterior a Judas, parte integrante de sua educação ancestral judaica. Significa aquele que se encontra em confronto com sua tradição, que visto pelo sistema instituído na normalidade parece vítima de tortura, mas que observado de ponta cabeça está dançando com leveza. Revela a situação em que a pessoa se coloca voluntariamente na posição de tortura social, de vergonha e vexame por estar seguindo a uma convicção interior, incompreensível ao observador externo.

Quando Judas decidiu se matar poderia tê-lo feito de diversas maneiras, mas enforcou-se numa árvore (também arquetípica, diga-se de passagem). Que tipo de sentimento terá feito escolher tal fim? Pergunto-me também sobre os jovens caiçaras... poderiam ter cortado a jugular, ou os pulsos num gesto de impulso irreversível, mas não, escolheram elaborar toda a engrenagem de cordas, apoio suspenso, nó adequado... que tipo de situação leva a essa representação? Me pergunto e me pergunto. Qual informação se traduz nessa metáfora: traição ou arrependimento.

Seja como for a interrupção da vida de um jovem é constrangedora para a comunidade a que pertence, a desarmonia parece contagiante (não foram nem um, nem dois, mas 5 nos últimos meses), de alguma forma um parece compreender e confirmar a atitude do outro. De alguma forma o sentimento de um despertou seu semelhante em manifesta reação.

Até que ponto podemos olhar para esse fato de forma pessoal e individualizada?

Tiradentes foi enforcado em praça pública. Não bastou constrangê-lo com a marca da traição, foi necessário tê-lo por exemplo para que tal conspiração não mais acontecesse. Seu corpo foi esquartejado e seus pedaços espalhados pela cidade como forma de humilhação e ameaça. O enforcado carrega a marca da vergonha, do constrangimento, é uma morte indigna. A garganta, local da voz, é oprimida. As palavras como instrumento de conspiração para Tiradentes, de traição para Judas são oprimidas, seu instrumento irremediavelmente quebrado e a morte como consequência da tortura do veículo do ar, do alimento e do som da vida.

O enforcamento acontece pela opressão simbólica da identidade (auto)punida: para Judas, diante da cultura ética; para Tiradentes, da cultura política e para os jovens paratienses, da cultura caiçara...

Reflito agora sem indignação, mas comprometida na busca não de culpado (trabalho de padre e de juiz), mas de solução para a desarmonia extremada, mortal, que ronda minha vizinhança.

Antes de construir a mudança, urge compreender o universo onde está interferindo, para que “a emendanão saia pior do que o soneto”.

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