Sobre um povo independente....




ESTADOS ALTERADOS DA PERCEPÇÃO - Hipocrisia cultural

Você já esteve em uma festa regada a vinho em fartura?
Já observou, ou pode imaginar, o estado em que ficam os convidados no final dessa festa?
Passou alguma vez pela sua cabeça a ideia de chegar a essa festa nesse momento trazendo mais vinho, de melhor qualidade e em abundância?
Pois foi exatamente o que fez Jesus, o Cristo.
Penso que se Jesus estivesse seguindo ao Papa católico (ou a qualquer líder de qualquer instituição pública ou privada, religiosa ou não do mundo moderno) ao invés de seguir ao Deus Pai teria transformado não água em vinho, mas sim o pouco de vinho que ainda restava, na água mais pura e benta jamais vista, capaz de restabelecer a saúde dos presentes, trazendo de volta a sanidade e compostura necessária diante da autoridade que estava ali para representar. Mas não foi isso o que ele fez, e não que não o pudesse fazer, o fato é que não o fez e não sou eu que vou questionar a moralidade divina, nem me achar mais santa que o Santo.
O que verifico é que faz parte da natureza humana buscar alterar a própria percepção sensorial em busca de experimentar a si mesmo, nossa cultura se constrói sobre esse estado alterado, cultuamos inúmeros ídolos que construíram sua personalidade lançando mão desse recurso, consumimos diariamente e intensamente o resultado alcançado por mentes e espíritos alterados: Shakespeare, Oswaldo Cruz, John Lennon, Noé, Vinícius de Moraes, Cazuza, Noel Rosa (até Regina Duarte, a namoradinha do Brasil...) e, é sempre bom lembrar, JESUS.
Nossa sociedade é leviana e hipócrita quando lança na ilegalidade a natureza humana. A proibição não só do uso, mas também da reflexão clara e franca sobre o tema é mais letal que os estragos causados em nossa moralidade pela imagem feia e torcida de bêbados e drogados que seguem abandonados pelos cantos ermos de casas e ruas com os quais temos convivido de forma oprimidamente cínica em tempos modernos.
Se combatêssemos nossa hipocrisia com a mesma intensidade com que combatemos a produção e venda de determinados entorpecentes continuaríamos convivendo com os estados alterados da percepção, inerente a vida em sociedade desde relatos remotos (foi encontrado THC ativo em múmias milenares...!) porém, de forma conscientemente amigável, acolhedora, saudável e por que não dizer, humana...
Sob o efeito da repressão e da opressão a que estamos submetidos diariamente por moralidades institucionalizadas por falsas premissas, até mesmo o vigor de nossas mãos torna-se arma e se volta mordaz contra nós. Nosso próprio organismo produz a química que altera nossa consciência e lançamos a violência até mesmo contra nossas crianças amadas, lançadas pela janela e trancafiadas em porões como vimos assistindo diariamente, confortavelmente, nos tabloides diários que nos entorpecem o espírito, involuntariamente.
Entorpecidos pelo consumismo de pequenos e grandes poderes, prazeres irrestritos, financiamos milícias oficiais que nos matam enquanto protegem nossa mediocridade; entorpecidos pelo medo nos confinamos calados em confortáveis caixas, gradeadas com bom gosto; entorpecidos pela superioridade cultural racionalista marchamos sobre os que nos são diferentes no tempo e no espaço (transmitido em tempo real e em rede nacional, civilizadamente simbolizados e preservados pelo patrimônio histórico cultural).
Mas quando a violência que acontece entre nossos iguais envolve um princípio ativo deliberado e sem controle, nossa moralidade santa grita e clama pela ordem que segue dando choque enquanto brindamos a isso, empapuçados!
Queremos escola para todos e todos na escola, não importando o que está sendo formatado em nossas mentes; queremos emprego para todos e todos empregados, não importando a serviço de quê nossa força e inteligência está dedicada 8 das melhores horas de nosso dia, 65 dos melhores anos de nossas vidas; queremos as leis cumpridas, mesmo sabendo da injustiça a que elas servem, mesmo sabendo da imoralidade com que são elaboradas e executadas (desde os Césares); exigimos que nossas autoridades solucionem nossas vidas, mesmo sabendo que são os piores entre nós os colocados a nos liderar...
E assim assisto aqueles mais sensíveis e amorosos entre nós caindo nas drogas, fracassados, incapazes de se adaptar a artificialidade cínica e burocratizada em que se transforma nossas vidas a cada dia mais cedo, enquanto os indiferentes seguem evoluídos. (e os heróis morrendo de overdose...) Os mais abastados acessam tarjas pretas, mas o fato é que necessitamos das drogas para entorpecer nossa sensibilidade e seguir esquecendo de nossas verdades profundas, nosso abandono coletivo e a dominação da imoralidade instaurada de cima para baixo em nossa sociedade. 

Quem vai atirar a primeira pedra?
Então, me chamem para a rua sim, mas não para marchar sem direção, não para cobrar de nossas autoridades políticas, porque essas só sabem fazer guerra (e de extermínio), como agem os ignorantes. Me chamem para a rua para olhar uns nos olhos dos outros, dar as mãos corajosamente e assim enfrentar nossa própria hipocrisia, cúmplices, e dar uns aos outros a coragem necessária para sairmos cada qual do conforto da própria alienação escolhida, entrincheirados que estamos em nossas próprias casas.

13 de maio: Como ser livre sem ser dona de meu tempo?


_ NÃO GOSTO DE TRABALHAR!

Pessoas que me ouvem falar essa frase, todas reagem com desconforto diante dessa minha confissão, dita sempre em desabafo e confidência entre cúmplices, enquanto reclamamos em intimidade das condições de vida social a que nos submetemos cada vez que servimos ao próximo em troca de dinheiro... trabalho.

_ Não existe trabalho ruim. Ruim é ter que trabalhar! (Seu Madruga). Essa frase traduz com perfeição o que sinto diante de minha dimensão produtiva.

A dominação cultural é um fenômeno interessantíssimo de se pesquisar. Entendendo cultura como sendo o entendimento que se tem da vida, da existência e todas as criações, ações e convenções advindas dessa compreensão, a partir do momento que aceitamos uma determinada forma de vida, vinculamo-nos a todas as regras que esse pensamento, esse conceito, essa ideia sobre a vida manifesta: valores, ética e moral.

Observar a mudança de valor atribuída ao trabalho, por exemplo, em nossa sociedade é bastante revelador do movimento de dominação a que nos submetemos.

Reflito sobre o dia 13 de maio, dia da abolição da escravidão no Brasil. Acho no mínimo curioso, pra não dizer irônico, o fato de ser o dia do trabalhador feriado e o dia da libertação, não. Ou seja, trabalho no dia que representa o não trabalhar... Existem valores revelados aí. Por que “festejar” o dia do trabalhador, quando sentimo-nos extremamente explorados, desrespeitados, sabotados em nossa dignidade nessa dimensão da existência...? Feriado justificado pelo massacre sofrido por seres humanos unidos em busca da dignidade roubada pela venda de sua capacidade produtiva, mal trocada por direitos de vida. E por que não festejar a data que marca um passo em direção a superação do mal que existe na exploração do homem pelo homem, despertando para a necessidade de limite nessa relação desigual por essência?

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O meio ambiente do servidor público na cidade de Paraty é dos mais precários que uma estrutura administrativa pode oferecer a um equipamento de serviço público... e não é de agora, nem exclusividade dessa cidade, eu sei.

Trabalho por obrigação, naquilo que me é permitido colocar minha energia e ao retorno que me é oferecido. Assim é com meus ancestrais todos também, toda uma genealogia de submissão faz ao menos 3 gerações... tendo que trocar o tempo para pagar os custos de vida (acrescidos impostos, lucros, propaganda e desvios de verba diversos). Não reagimos mais... a lembrança da liberdade representada pela autonomia comunitária vai ficando cada vez mais distante e a aceitação resignada, presente.

Faço parte da classe de trabalhadores que são Servidores Públicos. Prestei prova de mérito para que especialistas pudessem avaliar o quanto de acesso aos direitos humanos eu teria, mediado e medido pelo valor do salário. Concurso público: Uma modalidade moderna daquele procedimento de mostrar os dentes e os músculos exigido às peças humanas no mercado negreiro que as pedras do Centro Histórico dessa cidade conhece bem e que à elite agrada guardar, festejar na memória (outra ironia perversa que aprendemos a celebrar como nossa cultura...).

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Semana passada fui informada de que um jovem atendido por mim ano passado no CRAS da Ilha das Cobras estava “trabalhando” para o tráfico de drogas. Encontrei casualmente com a mãe dele que me contou que desde a última vez que nos encontramos ela havia separa do marido, seus filhos ficaram deprimidos e, na sequência o menino de 16 anos começou a usar drogas. Ela procurou os órgãos públicos em busca de ajuda psicológica, mas antes que pudesse obter tal ajuda, seu filho encontrava-se endividado com a “boca”... para pagar a dívida havia feito seu primeiro trabalho:
_ Era ele ou eu, mãe. Disse ele a mãe e ela a mim...

Tudo isso aconteceu na vida dessa família em menos de 1 ano. Seu filho agora recebe o status de “trabalhador do tráfico”... chamo isso de escravidão por dívida, exploração do abandono, descaso.

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Viva a abolição da escravidão... seja lá o que isso possa significar.

Dia das Mães




A maternidade é o único momento em que o ser humano é "avaliado" por sua potencialidade animal, onde o aspecto racional é ignorado e a natureza compulsória "valorizada", "protegida"...

O único trabalho realizado em nossa sociedade dominante cuja a "moral" e "ética" proíbem a cobrança de dinheiro ou de qualquer compensação material para o exercício da função é o que envolve a tarefa de ser mãe. Nem mesmo a avaliação competitiva por mérito é permitida em busca de reconhecimento e valor (não existe concurso de melhor mãe do ano ou prêmio Nobel da maternidade...). O conhecimento acumulado, a eficiência do método desenvolvido ou a especialização da pesquisa humana aprimorada durante o desenvolvimento da carreira não adquire promoção diante da Academia Científica, o mercado ou a cultura.

(Se a Mãe cobrar do filho as atenções dispensadas em sua criação... já pensou o tamanho da dívida acumulada desde a cópula até o primeiro emprego? O valor cobrado por cada consulta que fazemos a nossas mães sobre nós mesmos...quanto custaria?)

Todas as atividades desenvolvidas no ambiente de trabalho da mãe, são indignas se vistas pela perspectiva dos direitos trabalhistas: jornada de trabalho, disponibilidade para o serviço, condições de insalubridade do exercício da função, física e mental (índices não faltam sobre a frequência feminina em postos de saúde, psiquiátricos e policiais, quase sempre acompanhando suas crias... em exercício da função maternal) e total ausência de bonificação ou mérito.

Invisibilidade cultural completa.
Mas tem o dia das mães...

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_ Não tem ciência!
Insistia dona Maria, tentando dar-me a receita de seu delicioso vatapá escondendo-me o segredo:
_ Mas Dona Maria, é só isso mesmo? Tem certeza que a senhora me deu a receita certinha?
_ Não tem ciência, Carla! Tá tudo certinho, é assim mesmo!

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Se amor é aquele sentimento descrito por Paulo de Tarso, o Apóstolo das Cartas (...é um estar-se preso por vontade; é seguir a quem vence, ao vencedor; é um ter por quem nos mata lealdade...) então é encontrado nas cozinhas mais que nos quartos, e na imagem de deus não é a de Maria menos que a de Jesus.

A história de Maria vem sendo cada vez mais esquecida, sobretudo nas correntes de pensamento religioso protestante.

Quando lembrada, Maria aparece numa estátua exibida na praça em dia de festa, bordada na blusa em desfile de moda... idolatrada imagem.

Se a Bíblia é a história de pessoas atuantes, vivas, encarnadas e não de seres encantados em nuvens celestiais... então deixemos de adorar imagens (sejam imaginadas ou de cobre) e honremos noss@s ancestrais!


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Quando anunciei a minha avó Maria Izabel minha partida em direção a Bahia ela virou-se imediatamente para minha companheira de pele carregada de melanina e ordenou: _ Não vá levar minha neta pra macumba, hein? Dizem que tem muita macumba na Bahia.

Foi a deixa que eu precisava para conversar com ela sobre um assunto proibidíssimo em minha família evangélica. Minhas idas ao candomblé. Ela que nunca havia ido a macumba, me disse que gostaria de saber como é... conversamos e rimos um bocado naquela tarde em seu quintal de Santa Cruz.

Os terreiros de umbanda que conheci são casas aconchegantes, acolhedoras. Um quintal com árvores sacralizadas, grutas encantadas, energizadas diariamente com a força da devoção e comida farta e saborosa...

No quintal de minha avó Regina, mãe de meu pai, encontrava esse espírito acolhedor, as árvores e a devoção, mesmo sendo de família evangélica.

O fato de ter ficado viúva muito cedo, com crianças em casa para criar, minha avó não tinha como estar sempre na igreja, com isso era comum vê-la de joelhos ao pé da cama orando ou lendo a Bíblia. Os encargos com a casa e @s filh@s ocupavam-lhe à exaustão, física e emocional. No entanto, era pessoa amável e acolhedora. A casa sempre desarrumada, mas com um delicioso doce em calda, ou bolo, ou outra delícia que ela aprontava imediatamente para aquele que chegava e sempre estava chegando alguém...


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Tem ciência sim! O quindim de minha mãe é o mais gostoso.

_ Mããêêê, será que você faria aquele quindão pra gente comer de sobremesa no dia das mães?!

São Jorge e o dragão da fobia.



Anseio pelo dia em que a humanidade estará evoluída ao ponto de ao invés de ver sentido em repreender a expressão homo afetiva em respeito a presença homofóbica, entender que deve desqualificar toda expressão fóbica em respeito a qualquer presença afetiva, ainda que "anormal".

Aproveito o legado de Martin Luter King Jr para dizer que não me surpreende a loucura dos ignorantes, mas a cumplicidade dos esclarecidos. Pessoas que depois de declararem total compreensão quanto a dignidade homossexual, defendem sua invisibilidade diante “dos outros”.

Nessa hora clamo pela força que o arquétipo de São Jorge representa e busco sensibilizar, sobretudo os de boa fé, a usar essa força interior que habita a todos nós para reconhecer dentro de si a existência do perverso dragão do medo, opressão e controle, lançando a luz da consciência sobre ele, dissipando-o.

Já é tempo de entendermos que a dor que nos tortura a alma e que nos leva a desrespeitar famílias homossexuais, pessoas com mais melanina na pele do que temos, ou a mulher que exibe sua libido na praça não é provocada por nenhum desses fatos em si, mas pela atitude de negação diante deles e que ter um enorme número de pessoas compartilhando nossa ofensa não faz com que a escuridão diminua, mas a aumenta (ser seguido por milhões de pessoas – alemães, italianos e japoneses – não fez de Hitler um iluminado, nem garantiu êxito em sua busca de eliminar humanos anormais).

Deve-se considerar a aceitação do diferente, se não por motivos de consciência, pelos de inteligência, pois mesmo com toda a violência que os violentos insistem em usar contra os diferentes, a diversidade prevalece, é tipica da criação. Achar possível impor um padrão de humano a existência não é sensato. O único êxito possível nesse combate é o da permanência no conflito.

“Livrai da aparência do mau”, ensinamento muito comum na ética judaico cristã que entendo aconselhar sobre o perigo de se deixar enganar pela aparência, julgando erradamente uma pessoa por parecer má sem verificar a verdade, mas que “cegos que guiam cegos” em nossa tradição ensinam que o indivíduo deve adaptar sua aparência ao sabor do limitado julgamento alheio, escondendo sua verdade. Assim construímos um mundo fútil, onde a forma é mais importante que o conteúdo.

Cito o Rabino Abraham Skorba, que falando sobre o homossexual afirma: “eu respeito qualquer indivíduo, desde que mantenha uma atitude de recato e intimidade” , como fundamento da ética perversa que contamina todas as relações sociais no mundo moderno, contemplando a falsidade, a hipocrisia e o cinismo medíocre. ( publicado na edição 2316 da Veja)

A cultura ocidental vê mérito em burlar o falso julgamento com a falsa aparência (lembrei agora do “sapo barbudo” que se transformou em “Lulinha paz e amor” para alcançar o poder.) e depois não entende o colapso moral a que nos encontramos... achamos indigno o dinheiro gasto em projetos sociais, mas aceitamos de bom grado pagar 3, 4, 5 vezes mais caro no mesmo produto quando apresentado em embalagem que imprima uma estética mais agradável, familiar... respeitamos profissionais especializados em falsear o conteúdo com uma forma enganadora. Quanto mais enganadores nos tornamos, mais valorizados somos. Digo isso sendo técnica em publicidade

Pedir ao homossexual para respeitar o homofóbico é escurecer a ambos e entrar com eles na escuridão... ser homossexual e aceitar a invisibilidade, reprimindo o afeto espontâneo em público, é viver em conflito, alimentando o dragão interno, se deixando devorar por ele.

Que, antes de interferir no comportamento alheio, saibamos a distinção entre respeitar o medo que só sente quem está na escuridão e respeitar a verdade alegre de quem segue livre, alheio a escuridão. Porque respeitar o medo é intensificar o conflito e ter compaixão dele é lançar-lhe luz.

Na paz do Senhor, sigamos livres, sem julgar insensatamente e sem se abalar com julgadores insensatos, libertemos uns aos outros para a harmonia de todos, principalmente das crianças, a quem o futuro pertence.

Salve Jorge!

Tiradentes e o enforcado.




21 de abril entra para a história do Brasil como sendo o dia de Tiradentes, feriado nacional que lembra o herói punido com enforcamento pelo império português por ter participado da conspiração que buscava a liberdade de Minas Gerais do domínio da Coroa.

Ao condenar Tiradentes o Governo poderia ter escolhido diversas formas de punição, mas o enforcamento carrega um simbolismo específico em nossa cultura judaico cristã: a marca do traidor. Marca essa que se inscreve em nosso imaginário pelo suicídio de Judas, delator de Jesus que, arrependido da traição cometida, se enforca. Significado mantido vivo na tradição de “malhar o Judas” no Sábado de Aleluia, durante a Páscoa, quando a população aproveita para expressar sua indignação com aqueles vistos como perversamente falsos entre nós, simbolicamente enforcados nesse dia.

Esse ano os 2 episódios se fazem presentes em um só feriadão (Páscoa e Tiradentes) e enriquecem minhas reflexões: traição e arrependimento, punição e culpa.

Em Paraty no ano passado 4 adolescentes cometeram suicídio por enforcamento, esse ano 1 jovem, todos caiçaras. Tendo trabalhado com adolescentes no primeiro semestre do ano passado e trabalhando agora com comunidades tradicionais, essas mortes me inquietaram e me puseram a trabalhar para compreender o que elas revelam sobre o momento em que vivemos em sociedade.

A forca traz em si um poderoso arquétipo registrado em sistemas de sabedoria como o Tarot, jogo místico de autoconhecimento e revelação anterior a Judas, parte integrante de sua educação ancestral judaica. Significa aquele que se encontra em confronto com sua tradição, que visto pelo sistema instituído na normalidade parece vítima de tortura, mas que observado de ponta cabeça está dançando com leveza. Revela a situação em que a pessoa se coloca voluntariamente na posição de tortura social, de vergonha e vexame por estar seguindo a uma convicção interior, incompreensível ao observador externo.

Quando Judas decidiu se matar poderia tê-lo feito de diversas maneiras, mas enforcou-se numa árvore (também arquetípica, diga-se de passagem). Que tipo de sentimento terá feito escolher tal fim? Pergunto-me também sobre os jovens caiçaras... poderiam ter cortado a jugular, ou os pulsos num gesto de impulso irreversível, mas não, escolheram elaborar toda a engrenagem de cordas, apoio suspenso, nó adequado... que tipo de situação leva a essa representação? Me pergunto e me pergunto. Qual informação se traduz nessa metáfora: traição ou arrependimento.

Seja como for a interrupção da vida de um jovem é constrangedora para a comunidade a que pertence, a desarmonia parece contagiante (não foram nem um, nem dois, mas 5 nos últimos meses), de alguma forma um parece compreender e confirmar a atitude do outro. De alguma forma o sentimento de um despertou seu semelhante em manifesta reação.

Até que ponto podemos olhar para esse fato de forma pessoal e individualizada?

Tiradentes foi enforcado em praça pública. Não bastou constrangê-lo com a marca da traição, foi necessário tê-lo por exemplo para que tal conspiração não mais acontecesse. Seu corpo foi esquartejado e seus pedaços espalhados pela cidade como forma de humilhação e ameaça. O enforcado carrega a marca da vergonha, do constrangimento, é uma morte indigna. A garganta, local da voz, é oprimida. As palavras como instrumento de conspiração para Tiradentes, de traição para Judas são oprimidas, seu instrumento irremediavelmente quebrado e a morte como consequência da tortura do veículo do ar, do alimento e do som da vida.

O enforcamento acontece pela opressão simbólica da identidade (auto)punida: para Judas, diante da cultura ética; para Tiradentes, da cultura política e para os jovens paratienses, da cultura caiçara...

Reflito agora sem indignação, mas comprometida na busca não de culpado (trabalho de padre e de juiz), mas de solução para a desarmonia extremada, mortal, que ronda minha vizinhança.

Antes de construir a mudança, urge compreender o universo onde está interferindo, para que “a emendanão saia pior do que o soneto”.

Sobre a Páscoa.


Faz algum tempo que entendi que as informações encontradas na Bíblia nos chegam com deformações diversas devido à seleção e copilação dos livros, tradução dos textos, distância histórica e cultural entre os signos descritos e os significados atribuídos a eles.

Sem dúvida alguma a revolta protestante permitiu um avanço crítico considerável ao exigir acesso direto as escrituras. Sem a imposição do intermediário clérigo podemos nos expor diretamente aos obstáculos colocados entre nós e a sabedoria revelada ali de modo a deixar que o amor desperte em nós ao encontrar seu correspondente entre linhas.

Gosto de ler os evangelhos (principalmente o de João: “aquele a quem Jesus mais amou”...), encontro na história de Jesus, nos fatos ocorridos mais do que em parábolas e conselhos, o ponto determinante onde nos encontramos parados, a verdade sobre a vida em sociedade. Sinto que a atitude de sua pessoa diante do contexto do mundo que vivia aponta para o ponto de partida no qual permanecemos estagnados ainda hoje. Por estar preso a um livro com início meio e fim, entendemos ser a vida de Jesus a conclusão da história de Deus na terra, quando é apenas o começo. Somos levados a essa compreensão por nos entendermos separados Dele, quando somos um com ele. Somos Deus vivo, mas esquecido... (reflito se em termos de representação da verdade da vida a história oral, dinâmica e sem autor, apresentaria ganhos consideráveis comparada a escrita, estática e com autoridade).

Observo que a biografia de Jesus nos revela um contexto social onde a elite no poder está cega e corrompida e ainda assim se impõe como guia diante de pessoas simples, colocadas a seu dispor, sensíveis e honestas, exploradas e enganadas ao sabor da futilidade e arrogância da matéria esquecida do espírito.

Jesus assumiu o risco que qualquer cidadão corria ao se libertar da opressão mental, espiritual e material a que estavam submetidos todos que buscassem sua realização fora dos ditames das autoridades autorizadas e cumpriu o destino dos rebeldes ilegais. Ousou relacionar-se diretamente com o dom da vida e a vida lhe correspondeu, revelou o divino que habita toda a criação, alcançou o ilimitado, rompeu a ilusão colocada entre a vida e a morte.

O episódio ocorrido na páscoa é especificamente revelador da forma com que a mentalidade no poder impõe sua verdade. Como os detentores do conhecimento do comportamento humano manipulam a opinião pública para que a vontade da minoria prevaleça.

Pensar que muitos daqueles que se encontravam na praça haviam jejuado em preparação as celebrações pascoais, acabavam de oferecer sacrifícios a Jeová em busca de perdão e benção, vinham de longe para expiar os pecados e depois seguir para a praça em festa onde todos os anos um condenado era libertado, tradição banal para o público: _ Cara ou coroa? Barrabás ou Jesus? Ao escolherem colocar Barrabás, o popular, no confronto com Jesus os articuladores no comando sabiam que as chances do Cristo eram ínfimas. (É a copa do mundo distraindo a invasão do capital estrangeiro por um lado e a evasão do capital nacional de outro...)

Mais de dois mil anos se passaram, a história de Jesus atravessou o mar e ganhou versões em diversas línguas (os sincretismos garantem sua permanência entre nós com a páscoa de chocolates e o natal com laço colorido), com ela veio também a sociedade em que ele nasceu (Constantino sabia o que fazia quando copilou velho e novo testamentos...). Aceitamos os mesmos cegos corrompidos no poder autorizado, a mesma violência escravocrata, a demagogia hipócrita e a covardia cínica. Seguimos condenando os anormais menos populares em praça pública em dias de festa e aguardando a volta do messias, salvador de nossas ofensas...

Não precisamos entrar no aspecto místico da revelação para encontrar nos evangelhos a fonte da libertação, basta aprendermos ali a questionar a autoridade daqueles que ainda hoje se colocam diante de nós regulando e trabalhando para tornar a vida em sociedade sempre mais complexa, para parecerem indispensáveis. Colocados entre nós e o saber (escribas), a justiça (governo), o prover (negociantes) ou entre nós e o mistério (sacerdotes).

Basta que deixemos de ser uma massa para sermos únicos.

Agradeço ao filho de Maria por ter sido destemido diante da cegueira humana. Agradeço aos protestantes que abriram os caminhos em direção ao livre acesso ao saber, a luz.

Cabe agora a nós, frutos consequentes potenciais dessa coragem toda, irmos mais além, assumirmos nossa própria revelação, nossa irmandade em Cristo, sem intermediários. Entre nós e a vida apenas o Cristo, nenhum homem (ou mulher), nenhum pastor, professor, governador, escritor, patrão ou mesmo pai (“não devemos amar mais a pai e mãe do que a Deus”). Entendermos que cada um recebe uma mensagem exclusiva do Pai, enviada pelo Filho, entregue pessoalmente e aplicada ao contexto do agora. Que apenas nós podemos revelar a mensagem em nossa vida, vê-la manifestada diante de nós.

É perigoso. Mas com coragem (seguir o coração) podemos ir além e encontrar o céu na terra!

Celebrando o Primeiro de Abril


Tive sempre motivos para celebrar esse dia... Primeiro porque era aniversário da mãe de minha mãe: Dona Maria Izabel, a quem muitos me viram referir como sendo minha avó má. Lembrada tantas vezes em anedotas como sendo a “sogra”. Ter nascido no dia da mentira reforçava o mito sobre ela.

Depois por conta de outro aniversariante não menos anedótico: Professor Arthur, coronel da ditadura militar, a quem devo gratidão e afeto e que, a pesar da total discordância ideológica que nutríamos solidariamente, trago constantemente em minhas reflexões sobre os noticiários do contexto geopolítico, econômico e social da cultura racional.

Ambos octogenários, fizeram a travessia para o mundo de Hades no mesmo ano....lembro-me deles no dia de hoje, fazia os dois telefonemas em seqüência nessa data... ouvia os mesmos lamentos de quem percebia chegar o fim da vida. Desconfiados de que haviam sido iludidos pelo destino.

Lembrar dela escondendo o queijo e biscoitos do café da manhã para não compartilhar comigo que, criança, sofria de desejo e gula. Pensar nele afirmando que a ditadura brasileira matou e torturou pouco perto de outras contemporâneas suas, lamentando, para me provocar, ter livrado Chico Buarque que, segundo ele, manchava a MPB com sua mediocridade.

Mas afinal, o que é a verdade? Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade. Uma verdade revelada mil vezes torna-se banal!

Artur se formou na mesma turma do Ex-Presidente General Figueiredo. Minha avó era evangélica, batizada na Assembléia de Deus, empregada doméstica, mãe de 10 filhos, moradora da estação final do trem da Central, (lugar por onde Judas passou sem botas...) que por ironia chama-se Santa Cruz...

De um lado o homem branco, erudito, ateu, abastado e infiel. De outro a mulher índia, analfabeta, crente, pobre e fidelíssima (ta aí meu avô, seu marido, que aos 93 anos de idade não me deixa mentir).

Rebeldes, cada qual a sua maneira: ele adorava samba, fez parceria com Cartola e não chegou a General por ter socado um superior, contava redimindo-se. Enquanto ela, percebendo minha sexualidade anormal, dizia que se fosse jovem hoje em dia não iria querer saber de homem.

Autoridades morais em seus domínios, superiores em suas patentes culturais diante de mim: aluna e neta. O sombrio universo doméstico mais rude dialogando em meu ser com o universo institucional igualmente rude e sombrio. Pude perceber comparativamente as semelhanças na base conceitual onde construíram suas personalidades antagônico-complementares, suas ideologias, seus egos.

Maria Izabel é neta de família de aristocratas portugueses. Sua mãe, por ter casado com primo bastardo de descendência indígena, foi deserdada e expulsa de casa, viveu pelas ruas com sua família, passando fome com os filhos, pedinte (como tantas vezes me deparo e me solidarizo nas esquinas das grandes e ricas metrópoles do mundo globalizado), vítima da moral cristã que defendia.

“_ Andávamos para lá e para cá atrás de alguma coisa com que papai pudesse ganhar um dinheiro.” Dizia minha avó. “_ Muitas vezes dormimos em acampamentos ciganos, que eram os únicos que nos acolhiam.” Enfatizando os perigos pelos que passaram. Para traduzir sua fala eu diria que dormir em acampamento cigano seria tão perigoso quanto numa boca de fumo hoje em dia, ou em comitê do partido comunista em tempos da dita dura. A força militar modifica o público-alvo, a moralidade no poder instituído mira outras culturas, colocando-as na ilegalidade, tornadas assim perigosas... cigano, maconheiro, comunista, macumbeiro...

Quando os Generais deram o golpe na política eleitoreira, o poder diplomático e de guerra assumiu o controle instituído no país (nos países), garantindo o monopólio, sobretudo ideológico, nas mãos dos mesmos poucos que continuam hoje posando de primeiro de abril.

O tempo histórico é transversal e assimétrico que rasga as estatísticas com suas variações geográficas, de gênero e de cor, em todo o globo terrestre... Lembro dos episódios de Matrix. Num deles tem um Chaveiro como personagem peça de quebra-cabeça com poder de abrir dimensões... Chaves temos demais, aprendi, o problema é saber qual será a porta que nos levará para a dimensão ideal, da verdade de verdade.

Vivemos a abertura, livres da ditadura da opressão da Coroa, confundida com a Cruz, mesmo rompida com ela... Seguimos rompendo: Independência, Proclamação da República,  República Nova, República Velha, Estado Novo...

Celebro Artur e Maria, Rei e Rainha mais que clássicos na literatura. 

Arthur bem sabia disso, letrado, erudito da mais alta Academia no comando do país: A Academia Superior de Guerra do Exército Brasileiro, que mantém a soberania daqueles que se apropriam por pacto e conquista do território brasileiro desde o Tratado de Tordesilhas... 

Minha avó também tinha consciência da Maria Santa que tem o filho carregando a cruz de seus ensinamentos. 

Jesus foi criado por mãe judia que conhecia o TaroT e a ToraT, conhecia os mistérios da ┼, dos sacrifícios feitos a carne, conviveu com a matança ritual dos pagãos, era dominada por eles. Conhecia a sede por morte que os Deuses pagãos exigiam e fazia ela mesma seu ritual de sacrifício a Jeová, Josias. Jesus, seu filho, seguiu seus ensinamentos ancestrais e acabou oferecido a ┼ por seus iguais.